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Paixonite

Setembro 25, 2008

Eu a conheci numa entrevista de emprego há mais ou menos 5 meses atrás. Morena, cabelos finos e lisos, linda e com um sorriso mais bonito ainda. Sem perceber, fiz a entrevista olhando somente para ela, ignorando praticamente a existência de sua colega de trabalho que também a acompanhava na entrevista.

Fui contradado e comecei a trabalhar com ela. Cada dia que passava, cada vez mais me via encantado. Parecia que existia um gigantesco imã em meus olhos. Tudo que ela fazia me chamava a atenção e me deixava com cara de bobo.

Trabalhamos juntos por apenas duas semanas e como a maioria das minhas paixonites, eu nada fiz para tentar conquistá-la. Uma mulher como ela, nunca iria dar bola para um cara como eu. Ela é uma nota 9 e eu 7. Mulheres assim só ficam com caras nota 8, 9 ou 10.

Passaram-se 3 meses, quando o nome dela aparece piscando no meu computador. Abri a janela e começamos a conversar.

AL: Oi Matheus! Tudo bem? Tá muito ocupado?

M: Não, pode falar. Como você está?

AL: Tudo bem. Vou sair de férias. Isso é uma novidade incrível por sinal.

(Eu pensei: Uau! Ela me chamou para falar isso? Como assim? O que eu respondo?)

M: Uau! Que legal! Finalmente te deram uma trégua.

(Trégua? Trégua Matheus??? Não tinha nada melhor para falar? Fica quieto então!)

AL: Quase na marra digamos!

M: Hehehe. Imagino.

AL: Queria te convidar pra almoçar um dia desses, topa?

M: Claro! Que dia é melhor pra você?

(O que raios deu nela? A gente não se fala há 3 meses e nunca fomos amigos.)

AL: Estou querendo mexer numas coisas aqui na agência e tal… to batendo um papo com uma galera. Te ouvir seria interessante.

(Ah, ok. É trabalho. Matheus, você é mesmo um idiota. E você achando que ela iria realmente descobrir depois de 3 meses que você é o amor da vida dela e decidiu te chamar para um almoço, não é? Seu imbecil)

M: Vou adorar! Vamos sim! Não sei se posso te ajudar muito, mas vai ser legal te ver.

AL: Nem esquenta. To mesmo querendo papear. Gostei de trabalhar com você.

(Algo aconteceu lá. Ela deve querer me chamar de volta. Quem será que saiu ou foi mandado embora da agência?)

M: Que ótimo. Eu também adorei trabalhar com você. Vamos marcar sexta no shopping?

AL: Então ótimo. Até lá a gente se fala. Um beijão então! Até breve!

Mas naquela sexta não houve almoço. Uma virose a deixou de cama e ela não foi trabalhar. Na semana seguinte, a proximidade das férias fizeram ela trabalhar mais do que imaginava e mais uma vez cancelou o almoço. Duas vezes. Minha ansiedade me consumia intensamente. Se eu fosse fumante, teria fumado 3 maços de cigarro por dia durante a semana toda.

Suas férias chegaram e não nos falamos. Ela foi para a Europa numa viagem de 15 dias. Eu usei esse tempo para me enfiar de cabeça no trabalho e esquecer o assunto. Com certeza ela pensou duas vezes e percebeu a besteira que estava fazendo.

Chego na agência um belo dia e vejo seu nome online no messenger. Não falo nada. Ela desmarcou todas as vezes e não marcamos mais nenhuma data. Se eu falar com ela agora, vai parecer que eu estou desesperado para sair da agência que eu trabalho, ou pior, desesperado para encontrar com ela.

Uma semana passou e nada. Com certeza ela esqueceu do nosso almoço. Acho que pressionei demais todas as vezes que remarcamos e ela desistiu. Na tarde de terça-feira, desta semana, o nome dela volta a pular no meu computador.

AL: Matheus!! Como vai? Acho que agora  podemos agendar melhor nosso almoço. Quinta é um dia ruim pra você?

(Ela lembrou! Maravilha! O que eu tenho quinta? Reunião aqui na agência? Dane-se. Vou adiantar as coisas e vou almoçar com ela)

M: Oi. Por mim fechado. Como foi de férias?

AL: Incrível! Voltei semana passada , mas as coisas aqui estavam uma loucura. Essa semana está melhor.

M: Eu imaginei!

(Mentiroso! Mentiroso! Mentiroso!)

AL: Combinado então. Quinta a gente almoça. Beijos!

Na manhã de hoje acordei com borboletas no estômago. Não me sentia assim há 4 anos. Repensei os motivos que ela teria em me chamar para almoçar. De repente me caiu a ficha. Uma das meninas que trabalhava com ela tinha saído de lá. Ela com certeza ia me propor para voltar a trabalhar com ela agora ocupando o cargo de sua amiga. Estava claro! Como não percebi isso antes?

Fui tranqüilo pro shopping. Cheguei mais cedo e peguei uma mesa no restaurante. Ela chegou 5 minutos depois. Ainda mais bonita. Os cabelos mais curtos, lisos e preso com um pequeno nó que só ela sabe dar. Com um sorriso no rosto ela me abraçou, ficamos conversando sobre as férias dela, sobre trabalho, perspectivas de futuro, amigos em comum e de repente ela me pergunta:

“E você? Tá namorando?”

Meu coração parou. Então percebi uma curiosidade maior do que o normal em seu olhar e um leve sorriso no rosto. Será que ela também está interessada? Então foi pra isso que viemos aqui? Até agora não tocamos no tema de nosso almoço. O que está acontecendo?

Pagamos a conta e enfim toquei no assunto. Ela simplesmente passou batido por ele, como se agora não tivesse mais importância. Acompanhei ela até a porta do shopping e me despedi dela com um beijo no rosto e um grande abraço.

“Vamos ver se a gente marca mais vezes”. E dizendo isso, segurou minha mão agora. “Vou te passar as fotos da viagem para você”. Respondi que adoraria vê-las e que a gente ia marcar um outro dia.

Assim, fui embora. Não consegui trabalhar a tarde inteira e ainda por cima fiquei repassando todos os passos do início da conversa até hoje. Acho que preciso de um cigarro.

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Próxima Parada

Setembro 5, 2008


Eu a encontro quase todos os dias pela manhã. Eu estou atrasado e ela também. Ela é loira, cabelos cacheados e volumosos como alguém que faz campanha de shampoos na televisão. Mas ela não quer ser bela, ela quer quebrar esse padrão e assim, decidiu ter uma coleção de piercings. Três nas orelhas, um brilhante no nariz e uma argola na boca. Anda sempre de óculos escuros. Imagino que ela tem o mesmo mau humor que eu pela manhã, a mesma fotofobia que eu pela manhã e a mesma preguiça que eu pela manhã.

Eu a vi pela primeira vez na esquina com a Paulista com a Augusta. Eram 9h40 e eu estava saindo do metrô e começo a andar ao lado dela. Descendo a Augusta em passos firmes, decididos em não parar por nada nesse mundo. Não eram vagarosos como uma pessoa a passeio e nem desesperados como os atrasados que nos atropelam todas as manhãs por aqui.

Ela sobe no ônibus e eu mesmo com ele lotado, tento ficar longe para observá-la mais discretamente. Retira o Bilhete Único do bolso e eu quase consigo ver o nome, mas só li a primeira letra: J.

J. desce exatos 4 pontos à frente. Acho que ela trabalha na Galeria Ouro Fino, claro, uma mulher decidida, moderna e bonita descendo na Augusta só pode trabalhar lá. Deve curtir uma balada psicodélica com os amiguinhos em qualquer casinha da Vila Madalena. Está trabalhando só porque sua mãe a obrigou já que largou a faculdade duas vezes (Publicidade e Moda) e também para juntar uma grana para fazer mochilão pela Europa – com parada obrigatória em Amsterdam – já que ainda não decidiu o que quer fazer da vida.

Ela deve namorar um cara interessante, com uma vida diferente. Um artista plástico, VJ ou qualquer produtor da noite paulistana. Um dia, quando era mais nova, deve ter tomado um porre homérico na Loca e deu para o Barman no banheiro da balada mesmo. Não quer saber do futuro, quer viver intensamente o presente.

Porque raios uma mulher assim me chama atenção. Justo eu, um publicitário, planejamento, geek e gamer que vive em frente a uma tela de LCD 19” fazendo PowerPoint para apresentações ao cliente?

Ops, quase perdi meu ponto. Deixa eu apertar o botão. Tenho que correr porque preciso terminar o projeto antes do almoço.